Última noite – parte 1

 

paipb

Antes da partida:

Noite de abril de 1998, uma quinta-feira.

9 dias de Biocor.

Mais cedo, Elisa pede à mãe para leva-la para ver ou saber do avô.

Foi se despedir, sem saber.

– Professor Mozart está muito mal no CTI (dizia a recepcionista/telefonista)

Por inúmeras vezes, este era o mantra dela.

Alunos, ex-alunos e amigos ligavam perguntando sobre o estado de saúde do meu pai, depois das safenas.

E minha mãe só escutando, já paralisada.

Num ímpeto de ira, cheguei até a moça e perguntei se ela era médica.

– Lógico que não, foi a resposta.

Pedi então para que ela transferisse as ligações para um médico que, longe dali, iria responder informando com propriedade e privacidade.

Aproveitei e pedi papel.

Preenchi com minha caneta tinteiro preta 4 folhas de formulário contínuo que a pseudo médica telefonista tirou da impressora matricial Epson.

Escrevi ao dono do hospital, identificando-me com e-mail, identidade e Crea.

Este dono, um médico pseudo engenheiro, nunca deve ter lido.

Pelo menos nunca me respondeu.

Falei sobre a minha visita ao CTI 2 ou 3 dias antes, com o Marquinhos, médico clínico dele e meu amigo.

Ele, como eu, também nascido em 6 de março.

Como Michelangelo, David Gilmour e o primo Carlinhos.

Trocavam o piso do CTI (tipo um paviflex), que exalava um forte cheiro de cola.

Só dias depois entendi o motivo dos meus olhos vermelhos e ardendo. Ainda

não era de emoção.

Davam uma faxina no CTI.

Meu pai mal, infecção também nos pulmões, e uma senhora provavelmente também muito mal, os dois únicos hóspedes naquele sábado de manhã.

Devem ter dado alta aos que não estavam nas últimas.

Consegui comunicar com ele, de uma forma que nunca tinha acontecido.

Falei com ele, que estava sentado, todo cheio de tubos e uma máscara de oxigênio no rosto, que em breve sairia dali.

Ele pediu ao Marquinhos, com o olhar para o nada, para retirar a máscara da boca e disse:

– Meu filho, seu pai morreu.

Assustado, tentei brincar com ele dizendo algumas coisas sem nexo, como ir assistir ao jogo do Galo contra o Vila naquela tarde, como ele tinha me levado na minha infância, logo ali no Alçapão do Bonfim.

E ele novamente:

– Meu filho, seu pai morreu.

Marquinhos recoloca o oxigênio no rosto dele e me tira de lá.

Sem poder falar sobre o que vivi com a Dona Júlia, desço a BR surdo, mudo e lesado para meu escritório.

Lá, durante alguns minutos, ou algumas horas ou dias, tenho uma forte descarga emocional.

Evacuo sangue. Muito sangue.

Só saio do torpor quando escuto um buzinaço na rua.

Era minha irmã Miriam, que tinha combinado me buscar para a visita da tarde.

Comentei sobre o acontecido no vaso sanitário e falamos em rompimento de vasinhos que poderiam ter provocado o sangramento.

Que nada.

Só tempos depois entendi o recado e a despedida dele.

E minha dor ao entender que já tinha perdido meu pai.

Voltando àquela noite, um médico residente nos chama (eu, Miriam e Dona Julia) na antessala do CTI e disse meio assustado algo como:

– O gato subiu no telhado.