28 de dezembro…
Hoje o início do Garrafa 2.
Não com este título.
28 de dezembro…
Hoje o início do Garrafa 2.
Não com este título.

Desde criança nunca entendi certas expressões que adultos falavam.
“Água que passarinho não bebe”, “arrastar as asas”, “Dar uma de João sem braço”, “cor de burro fugido”, “Vá pentear macaco”, “Vá sombrar porco”, “Onde Judas perdeu as botas”, “Pensar na morte da bezerra”, “Tirar o cavalinho da chuva”, “Chover no molhado”, dentre tantas outras.
Com o passar dos anos, fui entendendo o significado, principalmente pelas explicações e broncas da minha mãe Júlia e da minha avó Gracinda.
Já em 72, entrando na faculdade de engenharia, começaram a surgir outras expressões e/ou palavras estranhas.
Uma das primeiras, ainda no Icex, me foi apresentada pelo Professor Ruy Tojero : “Vetor”.
Aula de Mecânica Geral I.
Eu atento numa resolução de um problema no quadro negro (naquela época era realmente negro), não percebi em que momento o vetor tinha desaparecido.
E ingenuamente fui perguntar ao Mestre onde ele tinha ido.
Ele, sarcasticamente (como diria meu pequeno Luca), colocou o giz na mesa calmamente e me chamou até a porta da sala:
– Corra que ainda dará tempo de alcança-lo, ele está quase descendo a escada.
E lógico que obedeci.
E não voltei mais nas aulas sobre os vetores.
Bomba! E tive que repetir o semestre da matéria, que era pre requisito de Mecânica Geral II.
Mas aprendi o que era Vetor.
Outra palavra cabulosa que conheci foi no meu primeiro mês de estágio na vida, na Construtora Rochedo.
Estava eu na importante missão de fazer (na mão, não existia excel, muito menos computador) os quantitativos de um hospital que seria licitado na Usina de São Simão.
E me deparei com um monte de janelas, de vários tamanhos e materiais, que estavam com o nome de esquadrias.
Como tive dúvidas de como quantifica-las, perguntei ao chefe, o experiente Dr. Mangueira, dono da Rochedo, de quem eu era o estagiário:
– Doutor Mangueira, como devo colocar as “esquadrilhas” no quantitativo?
– Não precisa mais, elas acabaram de passar, olhe que ainda poderá enxergar as fumaças deixadas por elas, me mostrando o céu azul na janela.
Até hoje ainda troco esquadria por esquadrilha, e vice versa, de tanta vergonha que passei.
Ontem, prestes a completar meus 65, às 3 e meia da manhã, aprendi o significado de uma sinistra expressão em francês, que nunca consegui soletrar e nem pronunciar com o meu francês de Colégio Santo Antônio.
Que era o nome de uma janela, eu sabia.
Minha Doce Aurora (e não é só uma homenagem à doce Veruska do meu xará Ricardo Boechat. Ela é doce sim) desfez minha dúvida de décadas.
Perguntei sem nenhuma vergonha o que significava o francês do tipo de janela que se pronunciava “maxi air”, ou “Maxmoi”. A cada dia falava de forma diferente.
O nome correto e sem nenhuma tradução do francês é: “Máximo Ar”, ensinou minha mestre e doce esposa arquiteta.
E caiu na gargalhada, que durou pelo menos mais uma meia hora.
Valeu para tirá-la do torpor da falta de ética que este país maluco tem nos jogado na cara diariamente.
Sempre achei que só depois que partimos é que poderíamos ajudar os filhos, transitando em todas as situações de forma invisível e silenciosa.
Falando aos ouvidos deles, sem emitir som algum.
E sem sermos notados.
Agindo como um anjo da guarda.
Como desejo ser um anjo da guarda para meus 3 filhos…
Só meus conselhos, os exemplos bons que dei na vida, não estão adiantando.
Impotência que me tira as forças.
Momento então de prece e recolhimento.
Preciso de uma reforma íntima para ajuda-los.
No sonho que tive esta noite, pude interagir e ajudar um deles.
Impressionante como pude falar sem ser visto em muitos momentos difíceis de um dos filhos.
E percebi que entendeu.
Mas no sonho não estava mais nesta vida.
Quero poder fazer enquanto estou aqui.
Por muito tempo ainda.
Comecei a ler a conta gotas no meu kindle o livro “Cuide dos pais antes que seja tarde”, do Fabrício Carpinejar.
Em cada frase, em cada palavra, vem a imagem da minha mãe Júlia.
Tenho ido visita-la com maior frequência e com uma enorme paciência e, consequentemente, observo cada detalhe para retribuir todo o afeto que recebi dela durante toda a minha vida.
Ela chegou aos 87 e só agora percebi que ela está sempre usando um colar de pérolas.
Observo também que ela está sempre bem vestida, nunca de pijama nem de havaianas, em qualquer hora do dia que eu chego em sua casa, mesmo sem avisar.
Também não usa a sandália fechada que a fisiatra receitou.
A vaidade dela não permite, que hoje entendo e aceito muito bem.
Minha mãe sempre foi assim.
Meu pai deve ter dado o primeiro de muitos colares de pérolas que ela tem e usa desde então.
Acho que nunca a vi, exceto nos finais de semana no Sharlé, sem um colar de pérolas.
Ela fica bem mais bonita que a Jackie Kennedy, que tinha também esta marca do colar de pérolas.
Dona Júlia é a Primeira Dama da nossa família.
Sabe-se que as pérolas estão sintonizadas com as fases da lua, que controlam as mudanças das marés.
São objetos calcificados de forma esférica precisa, encontrados em moluscos, do mesmo material usado para formar suas conchas protetoras.
Representam assim o papel protetor que ela sempre exerceu na minha vida.
A minha maestrina, desde sempre.
As pérolas podem durar até 150 anos e uma pérola natural com cerca de 2 mil anos foi descoberta na Austrália.
Não chego a pedir a Deus que a mantenha aqui com o mesmo tempo de vida de uma pérola de seu colar, mas peço que me dê sabedoria e saúde para conseguir escuta-la e entender suas tristezas e necessidades.
Ser o porto seguro que ela sempre foi para mim.


Antes da partida:
Noite de abril de 1998, uma quinta-feira.
9 dias de Biocor.
Mais cedo, Elisa pede à mãe para leva-la para ver ou saber do avô.
Foi se despedir, sem saber.
– Professor Mozart está muito mal no CTI (dizia a recepcionista/telefonista)
Por inúmeras vezes, este era o mantra dela.
Alunos, ex-alunos e amigos ligavam perguntando sobre o estado de saúde do meu pai, depois das safenas.
E minha mãe só escutando, já paralisada.
Num ímpeto de ira, cheguei até a moça e perguntei se ela era médica.
– Lógico que não, foi a resposta.
Pedi então para que ela transferisse as ligações para um médico que, longe dali, iria responder informando com propriedade e privacidade.
Aproveitei e pedi papel.
Preenchi com minha caneta tinteiro preta 4 folhas de formulário contínuo que a pseudo médica telefonista tirou da impressora matricial Epson.
Escrevi ao dono do hospital, identificando-me com e-mail, identidade e Crea.
Este dono, um médico pseudo engenheiro, nunca deve ter lido.
Pelo menos nunca me respondeu.
Falei sobre a minha visita ao CTI 2 ou 3 dias antes, com o Marquinhos, médico clínico dele e meu amigo.
Ele, como eu, também nascido em 6 de março.
Como Michelangelo, David Gilmour e o primo Carlinhos.
Trocavam o piso do CTI (tipo um paviflex), que exalava um forte cheiro de cola.
Só dias depois entendi o motivo dos meus olhos vermelhos e ardendo. Ainda
não era de emoção.
Davam uma faxina no CTI.
Meu pai mal, infecção também nos pulmões, e uma senhora provavelmente também muito mal, os dois únicos hóspedes naquele sábado de manhã.
Devem ter dado alta aos que não estavam nas últimas.
Consegui comunicar com ele, de uma forma que nunca tinha acontecido.
Falei com ele, que estava sentado, todo cheio de tubos e uma máscara de oxigênio no rosto, que em breve sairia dali.
Ele pediu ao Marquinhos, com o olhar para o nada, para retirar a máscara da boca e disse:
– Meu filho, seu pai morreu.
Assustado, tentei brincar com ele dizendo algumas coisas sem nexo, como ir assistir ao jogo do Galo contra o Vila naquela tarde, como ele tinha me levado na minha infância, logo ali no Alçapão do Bonfim.
E ele novamente:
– Meu filho, seu pai morreu.
Marquinhos recoloca o oxigênio no rosto dele e me tira de lá.
Sem poder falar sobre o que vivi com a Dona Júlia, desço a BR surdo, mudo e lesado para meu escritório.
Lá, durante alguns minutos, ou algumas horas ou dias, tenho uma forte descarga emocional.
Evacuo sangue. Muito sangue.
Só saio do torpor quando escuto um buzinaço na rua.
Era minha irmã Miriam, que tinha combinado me buscar para a visita da tarde.
Comentei sobre o acontecido no vaso sanitário e falamos em rompimento de vasinhos que poderiam ter provocado o sangramento.
Que nada.
Só tempos depois entendi o recado e a despedida dele.
E minha dor ao entender que já tinha perdido meu pai.
Voltando àquela noite, um médico residente nos chama (eu, Miriam e Dona Julia) na antessala do CTI e disse meio assustado algo como:
– O gato subiu no telhado.

Primeira conexão minha com uma faxineira na vida foi a Geny.
Antes conhecia apenas empregadas domésticas.
Eram escravas. Mesmo depois da Lei Áurea.
A primeira empregada da minha mãe que eu conheci foi a Geralda.
Morena bonita.
Índia. Ou filha de.
Era empregada doméstica e minha babá.
Será que cheguei a mamar nela?
Sou o primogênito, um quase privilegiado.
Nas constelações familiares dizem que sim.
Apesar de não significar absolutamente nada.
Não tenho como interferir na vida de meus pais nem de minhas irmãs.
Só carreguei o peso da responsabilidade.
O filho mais velho, o neto estudioso e CDF, o substituto do pai aos 14 anos quando ele saiu de casa.
O leva e traz recados durante uns 3 anos.
Ou mais.
Voltando à Geny:
Ela era a pessoa que realiza trabalhos domésticos como a faxina, que é a limpeza da casa e inclui varrer, tirar o pó, lavar, retirar o lixo e muitas outras.
Primeiro foi da Tia Crioula.
A Dona Maria José, que odiava ser chamada de Tia Crioula.
Como as filhas Zi e Tim, primas da minha mãe, que também odeiam seus apelidos.
Como o pai delas, o Tavico, marido da Tia Crioula.
Como o trabalho dela para a chata e extremamente vaidosa Tia Crioula não devia ser muito bem reconhecido, foi trabalhar para minha mãe, a Julinha.
Com seus olhos enormes, batom vermelho e sorriso aberto e sempre vaidosa, ia 3 ou 4 vezes por semana faxinar.
Não só tirar o pó e a sujeira, mas também reciclar todo o lixo psicológico familiar – mãe, avó e tias.
Era mais velha que minha mãe (86 anos hoje) e não deve estar mais aqui neste mundo maluco.
Lembrava que falava de uma filha mas, sabiamente, isolou a sua própria família das “Pardinis”.
Foi trabalhar depois para minha vó Gracinda.
Depois para minha irmã Miriam.
Era então considerada quase como uma pessoa da família Loureiro.
Geny era extremamente do bem.
E meio maluca. No bom sentido.
Uma das últimas lembranças minhas dela foi no prédio onde mora minha mãe até hoje.
Estava visitando a Julinha quando de repente entra esbaforida a Geny, soltando fogos pelas narinas.
– Dona Julinha, passei muita raiva agora no elevador vindo pra cá. Uma mulher desaforada passou os 14 pavimentos olhando para mim e me remedando. Tudo que eu fazia ela repetia. Botei a língua pra fora numa careta e ela fez o mesmo. Por pouco não dei uns tabletes na fuça dela. Ainda bem que o elevador chegou e ela deve ter continuado até a cobertura. Não olhei para trás para saber…
Devo ter falado para ela que no elevador tinha (e tem) um espelho que vai do piso ao teto, em frente a porta de entrada.
Mas nunca poderia convence-la que ela estranhava-se com a própria imagem neste espelho.
Esta era a Geny.
Bendita Geny!
Lá em casa tinha um JB também empoeirado no armário da sala.
Só seria aberto quando o filho – eu – passasse no vestibular.
E aconteceu naquele dezembro de 1971.
Perdi (eu, não eles país) até a final do campeonato nacional daquele ano. O único que o nosso Galo ganhou até hoje.
Mas eu tinha que ficar em casa estudando para que o JB pudesse ser aberto.
Que enfim foi aberto, após o JN ter divulgado a lista dos aprovados (fiz 142 pontos, mesmo número de pontos que o Lu, que viria a ser meu cunhado anos depois), depois de termos comemorado friamente no Mangueiras, pois meus amigos não passaram na UFMG.
Só foi aberto em casa, eu deitado na minha cama levemente tonto com o golinho permitido, e meu pai e minha mãe ajoelhados, um de cada lado da cama, rezando um “Pai Nosso”.
Que não chegou ao “o pão nosso de cada dia…” , culpa do JB aberto minutos antes.
Apagaram os 2 ajoelhados mesmo.
Tantos anos guardado e com efeito ultra rápido.
Descobri pelo Carpinejar hoje porque nunca mais tomei uma dose de um JB.


Julia Loureiro Pinto.
Nome de solteiro da minha mãe.
A mãe dela, minha madrinha e avó era Gracinda Gomes Pardini quando solteira.
Gracinha Gomes Loureiro quando se casou com meu avô Antônio Loureiro.
Avô que não conheci, só o Binha teve este privilégio.
Um português que chegou no Brasil, mais precisamente em Ribeirão Vermelho, junto do primo também chamado Antônio Loureiro.
Pelo menos meu avô foi trabalhar na Rede Ferroviária Federal.
Mal sabia escrever.
Mas era um gênio na oficina e um cara ético.
Meu chip vem dele também.
Para não fazer confusão com o nome dos 2 primos, alguém na cidade sugeriu que colocassem mais um nome.
O primo virou então Antônio Loureiro Pato e meu avô Antônio Loureiro Pinto.
Só podia mesmo ser ideia de português.
Que me dá um orgulho enorme do meu passaporte de cidadão português.
Assim fica explicado o Pinto da minha mãe.
Que só casar com meu pai, perdeu logo este Pinto e ganhou o Dolabella.
Que agora aos 86, conta este caso semanalmente, como uma novidade.
Ela, a única dos 5 filhos que teve o Pinto do pai.
Que ignorou os sobrenomes da esposa e só colocou o seu Loureiro nos outros.
Joffre, Jarbas, Jose e Janir. Loureiros, sem o Pinto.
Voltando ao avô que não conheci.
Apenas num quadro oval na parede da sala da sua Gracinda.
Careca, sisudo e óculos redondos.
Impunha um respeito enorme em todos na sala.
Morreu com 50 e poucos anos, acho que de sopro no coração.
Reza a lenda que nas refeições sentava-se na cabeceira da mesa, esposa e 5 filhos sentados em silêncio.
Tinham que esperar ele comer uma cebola crua e tomar um cálice de vinho do Porto.
Só depois de soltar um arroto alto é que todos podiam se servir.
E comiam em silêncio.
Também pudera.
Minha avó tinha apenas 14 anos quando se casou com ele.
Nem o conhecia – foi arranjado pelas famílias.
E ainda brincava de boneca.
Um dia meu tio Joffre me contou como era a camisola dela.
A única.
Branca, comprida nas pernas e braços e só tinha 4 botões na região da braguilha.
5 estupros, imagino.
Mas o português era extremamente inteligente como ferroviário.
Observando o enorme desgaste das rodas das locomotivas como dos trilhos quando a composição entrava em uma curva, desenvolveu uma peça que é usada até hoje.
Aperfeiçoada, claro.
Ao entrar na curva, a peça soltava gotas de óleo queimado, que reduzia a quase zero o atrito entre roda e trilho.
E assim a Rede economizou uma fortuna em manutenção e ainda vendeu o uso e a ideia patenteada para o mundo inteiro.
Invento que o Tio Joffre patenteou e orgulhosamente mostrava a Revista Cruzeiro (ou Cigarra, não me lembro) com a foto de capa meu avô entregando (doando) a patente para o Presidente da Rede.
Perguntado porque não vendeu, a resposta era imediata: se criei a peça dentro da oficina da Rede e em horário de trabalho, ela não me pertencia.
Não ganhou um tostão furado do patrão, mas ganhou a admiração e o orgulho deste neto que não conheceu.
Espero ter passado este valioso chip da ética aos meus filhotes Elisa, Ana e Luca.

Minha pequena acabou de entrar na sala 1 com o marido.
Vai dar à luz. Laura chegando.
Segundo parto, meu segundo neto.
E eu deixado pra trás, num salão enorme, com guichês, apitos de senhas, tevês passando nada.
Hospital Dia, maternidade.
Parece que foi ontem que minha Elisa nasceu.
Chegamos um pouco mais cedo que hoje na maternidade.
Eu, marinheiro de primeira viagem, 36 ano mais novo.
Tive que achar um médico às pressas para subir no elevador acompanhando a mãe.
(Elisa tem a quem puxar com estas crises de ansiedade, que ela chama de pânico).
às 07:30 ela chegou.
Sem chorar, meio que dopada pela injeção contra a dor que aplicaram na mãe.
Susto enorme e silêncio total na sala de parto.
Não chorou no primeiro minuto, mesmo tendo assustado, penso eu, com a barulhada da montagem do fórceps.
Que nem chegou a ser usado.
Ela estava com o pescoço enrolado no cordão umbilical.
(Desde então ela é preguiçosa para sair da sua zona de conforto).
Depois da injeção no próprio umbigo (explicaram que deram um tipo de antídoto do que a mãe tomou), soltou um belo berro.
Que durou uns 3 dias.
Tudo o que estudei, me preparei para assistir o parto, saiu totalmente diferente do previsto.
Cor, choro, tamanho.
E vem o médico e informa: tirou nota 7 no teste de Apgar. Sabia la o que era…
7 em 10.
Eu, acostumado com muitos 10, estranhei.
Mas o 7 virou 10 em poucas horas.
Para mim, virou 100.
07 de abril de 1981.
Até hoje espero o manual dela que esqueceram de me entregar.
Tento seguir minha intuição de pai pisciano.
E eu agora aqui no salão esperando.
Minha Sony à postos para registrar mãe e filha.
Melhor: filha e neta.
Mas me barraram na roleta.
Só o pai da Laura pode entrar com uma pulseira “verde cheguei” no pulso.
Avôs são menos importantes que imaginava.
Então, enquanto pacientemente espero notícias, monto na mente o filme da vida dos 36 anos da minha hoje pequena barrigudinha.
Tudo o que disse a ela diretamente e também nas entrelinhas.
Todos os palpites que dei a ela. Acho que a maioria nem escutados.
Foda-se.
Apenas falei o que pensava sem nenhuma culpa.
Ela agora deu uma chegada do lado de trás da roleta para informar que são 3 na espera do parto.
Acho que meu conselho “respire fundo e relaxa” acalma e dissipa a ansiedade dela.
Mais que o reiki que mandei de madrugada.
Mas não vi os olhos tristes.
Estavam brilhantes.
Medo e felicidade, imagino.
Quem está com olheiras sou eu.
Totalmente diferentes os papéis.
Pai e avô.
Ser pai e tudo na vida.
É dedicar a vida aos filhos.
É amar em silêncio, também incondicionalmente.
É ser o arco e atirar eles para a vida.
Mas ter uma ponta da corda invisível que nos une amarrada no pulso.
Para que, quando sentir algum risco de perigo, dar um puxãozinho avisando: “seu pai está aqui, sempre, desde que você nasceu, para o que der e vier”.
E sigo aqui na espera.
Escrevendo e relembrando sem retoques. Meu GPS dando um upgrade e as memórias vêm misturadas aos soluços, lágrimas e golfadas.
Como é na vida.
Vai dar tudo certo.
Pai tem sexto-sentido. Avô não sei.
Volto depois.