3 gerações

Luca chega da escola hoje – sábado letivo –  , 2 aulas de italiano e 2 de matemática.

Veio bem falante:

Todos na escola, professora de matemática e alunos, me chamam de “The flash”.

Sou o primeiro a entregar os exercícios.

Queria ter conhecido meu avô Mozart.

Sei que ele ficaria orgulhoso de mim.

Caiu um cisco no meu olho …..

 

paifilhoneto

Ciências exatas com aversão a cálculo

Mais uma manhã na função de acompanhante da Dona Julia ao médico.
Hoje no Marquinhos, antigo médico da família.
Que a trata como uma segunda mãe, e ela o chama de filho adotivo.
Um cara do bem, músico, cardiologista foda e também nascido em 6 de março.
Como David Gilmour e Michelângelo.
Dona Júlia, do alto dos seus quase 86 anos (faltam 11 dias), ansiosa e confiante ao mesmo tempo.
Fosse eu o psiquiatra que quis ser aos 17 anos, já teria pingado na sua boca umas 5 gotas de Rivotril.
Mas acabei me tornando um engenheiro civil, calculista, para a alegria do meu pai.
Contrariando as previsões do psicólogo que me fez testes vocacionais, um mês antes da minha inscrição no vestibular, que me deu bomba e fui o único a ser chamado numa salinha a sós com ele.
Resultado dos testes: “ciências exatas, mas com aversão a cálculo”.
Logo eu, filho do professor de matemática!
Entregou-me um roteiro de umas 5 páginas, mandou comprar um caderno bem grosso e escrever uma auto-biografia em uma semana.
A começar de quando ainda morava no útero desta senhorinha que está sentada aqui do lado.
Claro que não fiz e passei um mês na maior confusão mental.
Naquela época, anos 70, metade dos alunos homens do colégio franciscano que eu estudava escolhia engenharia.
A outra metade medicina.
O ponto fora do padrão foi o querido colega Chico.
Fez jornalismo e foi depois pra Globo, onde está até hoje.
Então cravei o X na Engenharia A, já que não tinha a opção Psiquiatria, só achei a Medicina.
Aquela manhã no teatro Francisco Nunes, quando fiz a inscrição para o vestibular, acabou definindo meu destino.
Profissional, emocional, financeiro e outras escolhas que nem com a psicanálise descobri.
E aqui estou, 46 anos depois, esperando o médico chamar e tentar explicar em linguagem que ele entenda, o que minha mãe tem para ele poder consertar.
Haja viagem no tempo, orações e envio de Reiki nestes longos 57 minutos de espera até agora.

 

 

 

 

Densitometria óssea

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Trocando de lugar com minha mãe.
Tarefas e responsabilidades agora invertidas.
Lado a lado com Dona Julia aguardando a senha 342.
Exame de densitometria óssea.
Hoje nela.
60 anos atrás o paciente era eu.
Trocentas vezes, imagino.
Dr. Acácio, o famoso pediatra Dr. Dolabella.
Que mandou Dona Julia não fazer absolutamente nada quando eu perdia o ar e ficava sufocado sempre depois de mamar.
Ficava apavorada.
E acontecia desde que nasci.
Ficaram os 2 esperando eu ter a crise “pulmonar” por um tempão.
Até que eu finalmente entrei quase em coma..
Dr. Dolabella, meu tio avô, ficou impassível e disse:
– Ignore o menino! Isto é piti….
E depois de ter ficado azul, vermelho e roxo, ressuscitei.
E nunca tive mais nada, para alívio da super mãe.
Ela acabou de entrar na salinha do exame e a Dra. não me deixou entrar.
Se fosse há 60 anos atrás (ou mesmo 60 segundos atrás) peitaria a médica e não me deixaria sozinho.
Mas sou menos briguento que ela.
Espero aqui no corredor quietinho.
Rezando e mandando um Reiki para que seja apenas uma distensão muscular a causa das dores e não uma fratura.

 

 

Comentando Carpinejar

Comentário sobre um texto do Carpinejar no Vida Breve (http://www.vidabreve.com/cortico-gastronomico/#.WXiotLJv-Ed):

Acrescentaria um outro total desrespeito aos que buscam tranquilidade na hora da refeição:
O uso do celular pelo idiota solitário na mesa ao lado.
Ou em qualquer mesa.
O imbecil acha que está sozinho na sala de estar de sua casa, e todos em volta são obrigados a escutar seu monólogo, geralmente em alto volume.
Parece um engenheiro de obra, que até hoje acha que é preciso falar bem alto para que a pessoa do outro lado o escute bem.
Como no tempo do interurbano analógico.
Somos obrigados a escutar uma bronca dada a um filho, uma discussão da relação amorosa (ou não) com a esposa ou marido, uma troca de fofocas com sua amiga(o), como se fazer um quiabo sem babar, como se retira as formas de uma laje e como se faz corpo de prova do concreto, as notas do filho na escola, aos resultados dos exames de sangue e PSA da próstata, e por aí vai.
Poderia ser até pior, se o estúpido estivesse usando o viva voz.
Restaurantes deviam proibir o uso dos celulares.
Poderia falar em outro local onde não sou respeitado pelo mentecapto: a sala de cinema.
Escutar o pateta comer o raio da pipoca de boca aberta, tomar a coca no canudinho fazendo o barulho de um vendaval, tecer comentários imbecilizados sobre o filme.
Mas fica para uma outra oportunidade…

 

Mãe

Belíssimo texto do Carpinejar no Hora de hoje, 09:05:2017.
Já no título, caiu um cisco no meu olho.
Aliás, nos 2.
Embaçou tudo à minha volta.
Muita sorte e benção de Deus eu poder conviver e dar algum colo para minha mãezona.
Já também um pouco encurvada e encolhida, com algumas dores na canela e nas costas.
Mas sempre me esperando aos domingos com seu pano de prato amarrado ao pulso para não se esquecer do seu forno traiçoeiro.
Com a mesinha de centro sempre posta com as xícaras sem asas que queimam meus dedos ao servir o café.
Com a energia e coragem de mandar à merda quem a irrita, mesmo por brincadeira.
Com a delicadeza de oferecer ao neto Luca os biscoitos e vitaminas que ele tanto gosta.
Com o carinho de oferecer à querida nora a cama do quarto do meio, para que descanse os ouvidos da torcida para o Galo de toda a família, tirando uma soneca.
Com a ternura e respeito ao pedir um beijo de despedida para o tímido neto,o que raramente consegue.
E que estufa a bochecha para receber o meu já não tímido beijo de “boa noite e uma ótima semana”, curvada, mas posicionada para receber meu abraço.
Obrigado por tudo Mãezona, esperando diariamente nossos papos telefônicos.
Que puta privilégio eu ainda tenho nesta vida….IMG_0308

Ana Bacana

Queria escrever para você hoje.
Ontem, amanhã, todos os dias.
Mas sempre que começo, cai um cisco no meu olho e os dedos não obedecem o cérebro.
Então compartilho um texto do mestre Carpinejar.
E te agradeço por tudo.
Pela sua sensibilidade, pela sua coragem, pela sua retidão. pela sua delicadeza, pelas lições que tem me dado desde que nasceu.
Agradeço por me mostrar, junto com a Elisa, que vale muito a pena viver.
Tenho certeza que a escolha de você dois, celebrando o amor hoje com todos nós, é eterna e irreversível, plagiando o Carpinejar.
E hoje não precisarei de nenhuma ajuda para chorar.
De felicidade.
Seja muito feliz, filha amada.

Viver

Parafraseando Carpinejar: pelos meus 3 filhos, hoje em especial o Luca, descubro que envelheço.
Mas, por eles, não quero morrer, quero e preciso lutar para continuar vivendo!IMG_0307.JPG

Sal no vôo?

Surreal, vôo São Paulo-Fortaleza, casal na segunda fileira, ou seja, início do corredor, pede 2 strogonofs para a aeromoça. Quando o carrinho ia avançar, o porta voz do casal pede sal. Claro que não tinha no carrinho. O ajudante da
Comissária Santoro (provavelmente prima do Luca) vai até o fundo da aeronave tentar achar um salzinho.
Depois de uns 10 minutos, fora uma interrupção do serviço de bordo por causa de uma área de turbulência, o sal chega e o casal inicia o almoço, com as poltronas reclinadas ao máximo espremendo minhas pernas e minha mesinha. Depois da fila que se formou para uma chegada ao banheiro acabar, o carrinho de lanches volta a andar. Mas estamos quase em Fortaleza. Talvez ainda pediremos nosso combo, pois estamos na fileira 3.
Este tipo de serviço de bordo deve funcionar melhor numa viagem São Paulo-Pequim. Na volta perguntarei ao Cris.

Despescar

IMG_0300.JPGVivendo e aprendendo.
O garçom que nos atendeu hoje explicou que o peixe que saboreamos no almoço veio do mar em nossa frente.
Era um Pargo, delicioso, assado.
E apontou 3 jangadas na linha do horizonte, perto da África.
Duas delas estavam vindo provavelmente com as cestas cheias de pargos, robalos (com um outro nome) ou sardinhas.
A que partia, uma de vela vermelha, estava indo despescar.
Tinha saído cedo, jogado a rede, ou outra armadilha, em um ponto em alto mar, marcado por boias da cor da vela. Explicou também que os homens do mar tinha lealdade uns com os outros, diferente dos homens da terra. Um jangadeiro pescador sempre respeita a rede do outro.
Aí aprendi o significado do verbo: esta jangada estava indo despescar e voltaria antes do anoitecer com o produto da “despesca”.

Coelho falante

Minha mãezona tinha infinitas habilidades e praticava muitas delas na minha infância.
No sobrado da Rua Varginha, onde nasci.
Fazia “mechas” em cabelos de suas amigas. Assustador o processo, pois sempre me assustava ao ver os cabelos estilo “cheguei de moto”, com centenas de puxadinhos de cabelos embrulhados em papel alumínio com um creme dentro, e aguardavam longas horas de espera para fazer o efeito desejado – tornar o cabelo branco.
Uma outra habilidade era a confecção de bichos de pelúcia.
Também montava turmas de alunas sedentas para aprender o ofício.
Foi usando um coelho do meu tamanho que planejei vingar do ciúme que tinha do meu primeiro e maior amigo: o querido primo Binha.
Ela era o neto mais velho, o único neto que o nosso lusitano avô conheceu e afilhado do meu pai, que era por ele chamado de Buá.
Temia nunca ser o mais querido da casa.
Claro que sempre fui, até a chegada das irmãs. 
Naqueles anos 50, nem eu nem ele conhecíamos as teorias freudianas.
O Binha então só contribuiu com minha posição no lar, pois meu pai treinava com ele o amor filial, até antes de março de 1954, quando cheguei.
Sempre com a admiração e compreensão do Jarbão, o pai do meu rival, cunhado do meu pai.
Como demorei alguns (poucos)  anos para compreender isto, usei então o coelho gêmeo que ele ganhou da tia para a vingança secreta.
Criei a fantasia que meu coelho conversava comigo toda noite. Talvez até conversasse mesmo, não lembro.
E contava isto ao Binha toda vez que a gente se encontrava.
Ele ficava invocado demais, eu rindo por dentro, aliviado.
Que alívio, minha mãe gostava mais de mim do que dele….
Só o meu coelho falava.
Quando ele ia dormir lá em casa, tentava ficar acordado a madrugada inteira para poder entender porque os coelhos gêmeos tinham esta significativa diferença.
Nas noites de Natal, colocávamos palitos nos olhos para flagrar o Papai Noel chegando, e ele, secretamente, conseguir flagrar o meu coelho papeando.
Mas ele nunca viu nem uma coisa nem a outra. E muito menos o dele falou uma vez sequer.
Vingança concretizada!
Talvez conte meu segredo pra ele hoje, 60 anos depois…
Ele merece!
ceolhos