Coelho falante

Minha mãezona tinha infinitas habilidades e praticava muitas delas na minha infância.
No sobrado da Rua Varginha, onde nasci.
Fazia “mechas” em cabelos de suas amigas. Assustador o processo, pois sempre me assustava ao ver os cabelos estilo “cheguei de moto”, com centenas de puxadinhos de cabelos embrulhados em papel alumínio com um creme dentro, e aguardavam longas horas de espera para fazer o efeito desejado – tornar o cabelo branco.
Uma outra habilidade era a confecção de bichos de pelúcia.
Também montava turmas de alunas sedentas para aprender o ofício.
Foi usando um coelho do meu tamanho que planejei vingar do ciúme que tinha do meu primeiro e maior amigo: o querido primo Binha.
Ela era o neto mais velho, o único neto que o nosso lusitano avô conheceu e afilhado do meu pai, que era por ele chamado de Buá.
Temia nunca ser o mais querido da casa.
Claro que sempre fui, até a chegada das irmãs. 
Naqueles anos 50, nem eu nem ele conhecíamos as teorias freudianas.
O Binha então só contribuiu com minha posição no lar, pois meu pai treinava com ele o amor filial, até antes de março de 1954, quando cheguei.
Sempre com a admiração e compreensão do Jarbão, o pai do meu rival, cunhado do meu pai.
Como demorei alguns (poucos)  anos para compreender isto, usei então o coelho gêmeo que ele ganhou da tia para a vingança secreta.
Criei a fantasia que meu coelho conversava comigo toda noite. Talvez até conversasse mesmo, não lembro.
E contava isto ao Binha toda vez que a gente se encontrava.
Ele ficava invocado demais, eu rindo por dentro, aliviado.
Que alívio, minha mãe gostava mais de mim do que dele….
Só o meu coelho falava.
Quando ele ia dormir lá em casa, tentava ficar acordado a madrugada inteira para poder entender porque os coelhos gêmeos tinham esta significativa diferença.
Nas noites de Natal, colocávamos palitos nos olhos para flagrar o Papai Noel chegando, e ele, secretamente, conseguir flagrar o meu coelho papeando.
Mas ele nunca viu nem uma coisa nem a outra. E muito menos o dele falou uma vez sequer.
Vingança concretizada!
Talvez conte meu segredo pra ele hoje, 60 anos depois…
Ele merece!
ceolhos

Deixe um comentário