– Trint’sete!

bingo

1º científico, aula de química, eu no alto dos meus 14/15 anos.
Matéria: equações de oxirredução (na época ainda era “oxi-redução”)
Professor Willer, colega e amigo do meu pai, professor de matemática.
O professor Willer tinha o apelido (na época devia ser “alcunha”) de Marciano.
Marciano por dois motivos:
Primeiro porque ele, apesar de novo, tinha os cabelos completamente brancos.
Dizia a lenda que ficaram assim depois de um jantar que foi com a esposa, na casa de um casal de amigos. Na hora das despedidas, a esposa do amigo veio com uma bandeja com duas taças de licor, oferecendo aos dois homens. Meu Professor, educadamente, serviu-se da taça de trás, liberando a da frente para o amigo.
Rápido no gatilho, antes do amigo, levou logo o líquido à boca e assim que percebeu um gosto diferente do esperado e como um bom químico e especialista na tal oxirredução, deu um grito avisando que era veneno e caiu desmaiado. Acordou dias depois no CTI com os cabelos todos branquinhos. Na época imaginávamos que os marcianos eram todos grisalhos.
O segundo motivo do alcunha Marciano é que, para suas provas orais (arguições na época), usava um saco de feltro verde cheio de bolinhas de víspora (hoje Bingo) para sortear os felizardos. E o fazia com um sádico humor, obviamente nada engraçado para nós alunos.
O tal saco, verde como um marciano,  nos apavorava.
Logo no início da aula daquele dia, avisou que teria prova no quadro negro, para testar nossos conhecimentos de oxirredução.
Escreveu com giz no alto do quadro uma equação enorme, provavelmente aprendida em Marte, o planeta vermelho, não verde.
E avisou mais ou menos assim:

– Deverá ser feito o balanceamento da equação, igualando o número de elétrons cedidos com o número de elétrons recebidos. A parte que ganha sofre oxidação e a que perde sofre redução.
Simples assim. Para ele, claro.
– Vamos começar, diz ele colocando a mão no saco verde para tirar a primeira bolinha.
– 37!, Berrou para o colégio inteiro escutar.
Quando me levantei, ele pediu um tempo e retificou:
– Trint’sete!
Era assim que meu pai pronunciava o numeral, sumindo com uma vogal. Como também falava “vint’oito” e não “vinte e oito”.
Lógico que eu era o 37 e também o filho do professor de matemática.
Fui para a frente do quadro, de costas para uns 40 colegas (meninos, pois ainda não era permitida a matrícula de moças no colégio franciscano). E lá fiquei longos segundos, calado, neurônios adormecidos, gelado de pavor.
Não tinha a mínima ideia por onde começar (ainda não tenho até hoje).
Acho que minha gastura por giz vem desse dia.
Professor Marciano não esperou muito e me avalia:
– ZERO! Pode sentar-se, filho do Mozart.
Olho para o chão e vou para minha carteira (cadeira e mesa hoje) humilhado e me sentindo um burro.
Estou “fu“, pensei eu: tenho que varar noite estudando para tirar 10 e ficar com 5, que era a média do colégio.
Mas como dizia o ditado: “se está ruim, tenha calma, depois piora”.

Professor marciano:
– Segundo aluno a vir para a frente do quadro, mesma equação a ser resolvida:
– Mão no saco verde e…. 37!
Sim, a pedrinha sorteada anteriormente sempre voltava para dentro do saco verde.
Ele me olhou dos olhos e dispara:
– Pode ficar sentado: Zero! Sua nota será dividida por 4.
Final do mês: estudei como um louco, tirei 10 e fiquei com 2,5 no boletim.
Deveria ter processado o planeta marte inteiro pela gozação (hoje “bullying”) que sofri até o 3º científico.