This Is Us – 1

O episódio que assisti hoje me fez dar uma longa volta ao passado, uma leitura do meu papel na vida.

Em uma metáfora de um trio de jazz.

Principalmente em um instrumento por muitas vezes desprezado: o baixo.

Ele é o responsável pela base harmônica, é quem concede profundidade aos sons graves.

É ele quem toca as notas fundamentais dos acordes.

Dizem serem os baixistas os goleiros da música.

Uma metáfora que li sobre o baixo: se a guitarra fosse o chantilly e a bateria, a bandeja, o baixo seria a massa do bolo. Ninguém comenta a massa, mas, sem a massa, não existe propriamente um bolo.

Por tocar a nota mais grave do acorde e sustentar a harmonia da banda, dá ao baixista um superpoder não visível para a maioria das pessoas.

Se a banda está tocando um acorde alegre e o baixista tocar uma nota que não faz parte desse acorde, muda totalmente o significado das notas e torna o acorde triste.

Portanto, a cada nota tocada pelo baixo, sua repetição, seu tempo de duração, vai fazer que o ouvinte se emocione, dançando ou chorando.

Um conselho dado por mestres da música: “Aumente o grave nos fones de ouvido e preste atenção lá atrás.”

O baixo merece total respeito.

Sinto hoje que ainda sou o baixo, quase sempre fui.

É o instrumento mais tranquilo em um trio de jazz, como na vida.

Quem sola uma música é quem recebe todas as glórias.

Mas é o baixo quem sustenta o solo.

Como na vida.

Quem ouve de verdade, escuta o baixo.

Chega um momento na vida que precisamos ser o solista.

Colocar nossas necessidades acima de tudo.

Isto depois de permitir que as outras pessoas tenham sustentado a vida e assumido o solo por um longo tempo.

Talvez tenha chegado a hora.

Nunca é tarde.

Minha partida de futebol

Aos 15 anos (set/69) assisti o meu Galo vencer a melhor seleção brasileira de todos os tempos por 2×1.

Fui com meu pai ao jogo mais emocionante da minha vida.

Galo de Yustrich, Cincunegui e Dario. Seleção de Pelé,  Gerson, Rivelino e Saldanha, que foi demitido após o jogo.

Saldanha foi demitido após o jogo, pois declarou que no país existiam 10 atacantes melhores que o Dadá. Como não convocar o Peito de Aço, que fez 926 gols na sua carreira? Seleção brasileira tem que ter jogador do Galo!

Pânico

Lembro-me da primeira vez que senti esta coisa maluca, este medo absurdo, o que anos depois soube que o nome usado pelos médicos é “Síndrome do Pânico”.

Domingo à noite, tinha saído da casa de um colega, meu sócio na época, umas 2 ou 3 cervejas para suportar o violão de engenheiro do primo, que distribuía sempre caderninhos iguais com as letras das músicas para que todos pudessem acompanhar e cantar junto.

Na mesma sequência do caderninho, sem pular uma canção nem fazer surpresa com uma fora da relação.

Cantavam todos desafinados, fora do tom. Principalmente eu.

Roda de violão de engenheiros. Cartesianos.

Um domingo cenográfico morno, gelado de emoção.

Uma MPB que não eu gostava, mas que era chique saber e admirar.

O meu velho e bom rock’n’roll não era moda.

Não é até hoje, décadas depois.

Covardia minha não levar minha flauta transversa Yamaha bege clara e tocar Bourré de Bach/Ian Anderson que aprendi com o primo Maurício. Ou Sonata ao Vento, composição minha.

Também de não ter levado meu violão Giannini, o primeiro que ganhei aos 10 anos.

Que não dei continuidade aos estudos, pois o meu primeiro professor, Raul Marinuzi, foi passar férias de um mês na Itália e nunca mais voltou. Estava aprendendo as cifras do Roberto Carlos, alternando com as partituras clássicas.

Ou mesmo minha gaitinha Hering, meu primeiro instrumento musical.

Depois da última música do caderno, da tabela de engenharia, que talvez tenha sido Carinhoso do Pixinguinha, puxei a fila para ir embora.

Lembro que sai sem amarrar os cadarços do tênis Rainha.

Aliás, porque nunca aprendi a amarrar cadarços?

Vergonha de perguntar como se fazia.

Fingia que gostava do cadarço solto.

Mas também odeio usar o crachá no meu trabalho.

“Engenheiro Ricardo Dolabella”. Sou muito mais que isto.

Tudo ia relativamente tranquilo, descendo a Avenida do Contorno com meu Passat TS branco, até que entrei à esquerda na Prudente de Morais, por volta da meia-noite.

Aí tudo mudou. Não foi por causa do álcool.

O asfalto escureceu muito, os passeios ficaram infinitamente mais largos, os postes mais altos.

Todos os poucos carros que eu via pareciam que iam colidir no meu.

Meus pés nos tênis desamarrados não mais conseguiam tocar os pedais do acelerador.

Encostei o Passat, desci e deitei no meio-fio.

Chorava tremendo de medo, vergonha e impotência.

Avenida muito iluminada, quase deserta.

Eu me sentia em um enorme salão de festas totalmente vazio, muito claro e silencioso, só com as minhas emoções, meus medos e bloqueios.

E eu estupidamente sozinho. Amedrontado e acovardado.

Tive uma ajuda dos entes lá de cima, só pode, entrei no carro e, de centímetro em centímetro, rente ao meio fio, consegui entrar com o carro na garagem, uns 3 ou 4 quarteirões dali.

O Passat ficou estacionado na minha vaga por uns 4 anos pelo menos.

Só ligava o motor uma vez por semana, para não arriar a bateria. A do Passat e a minha própria bateria.

Ficamos anos desenergizados.

Aos poucos descobri que não era loucura, nem frescura.

E também não era depressão.

Era um medo absurdo de sair do meu porto seguro – meu apartamento, e de entrar em qualquer veículo.

Ônibus, taxi, me oprimiam. Desci de vários deles desesperado antes de chegar ao destino final.

Uma sensação que algo muito terrível estava prestes a acontecer.

Também não conseguia ficar em locais com muita gente. Praças, festas, avenidas cheias.

Ia logo para o Porto Seguro.

Tudo isto sem falar com as minhas filhas, irmãs e amigos.

Nem com as candidatas a namoradas.

Como iria conseguir se nem ao menos dirigia?

A desculpa do carro estragado e falta de grana nunca colaram.

Com um ou outro amigo comentei.

E vinha o conselho para sair da toca e tomar uma no bar – a melhor terapia.

Não ia.

Até que encontrei 2 anjos encarnados que me mostraram o caminho.

O primeiro:  A médica Sofia Bauer.

Alta madrugada, assistindo no porto seguro uma reprise de uma entrevista na TV Cultura, eis que uma psiquiatra descreve tudo o que eu sentia como sintomas de uma tal “Síndrome do Pânico”.

Fiquei emocionado com a possibilidade de entender o que acontecia comigo e mandei um e-mail ainda de madrugada pedindo ajuda a ela, que tinha o mesmo provedor meu: Prover.

Poucas horas depois me enviou um arquivo enorme em PDF do seu livro que ela ainda nem tinha sido publicado: “Síndrome do Pânico – Um sinal que desperta.”

Nele, descobri algumas das causas do meu desequilíbrio: um excesso de culpas, de fardos que carregava, do meu bom caráter, da minha honestidade, da minha sensibilidade à flor da pele, dentre outras tantas.

Comecei a entender que era preciso respirar, parar, aliviar, descansar e me sentir protegido.

E como no Budismo, aprendi a ver o sofrimento como um sinal que iria me despertar.

Segundo Anjo: A Irmã beneditina Blandina Dolabella

Prima do meu pai, freira no Mosteiro Nossa Senhora das Graças, na Vila Paris.

Já tinha ido nela no papel de pai das minhas filhas e no de filho da Julia e do Mozart.

E ela se referia a mim como filhão.

O filho que não teve, pois era “casada” com Jesus Cristo, e usava uma aliança na mão esquerda.

Tinha ficado décadas enclausurada em um mosteiro, sem ter contato com ninguém de fora, sem televisão, sem rádios ou jornais, apenas lendo muito e rezando/conversando com Deus.

Tão logo sentiu que eu estava emocionado e apavorado, com toda a sua sabedoria colocou as 2 mãos sobre a minha cabeça e me deu um passe (nunca com este nome, claro), falando ou orando palavras incompreensíveis para mim. Soube mais tarde que era sânscrito.

E numa simplicidade incrível, depois de ter trocado informações com seus guias ou santos amigos, me perguntou:

– Quando você tem uma dor de cabeça, o que faz para melhorar?

– Tomo um analgésico, respondi.

– E como agora está se sentindo paralisado com esta sobrecarga que tem carregado, espere aí que vou dar um telefonema e volto.

E retornou já com uma consulta marcada com uma neurocientista, conhecida dela.

Para aquela mesma tarde.

E, junto da minha terapia e do que aprendi no livro, comecei a tomar um veneninho que começou a me tirar do abismo que estava.

Os sinais e os anjos me despertaram.

Máximo ar

Desde criança nunca entendi certas expressões que adultos falavam.

“Água que passarinho não bebe”, “arrastar as asas”, “Dar uma de João sem braço”, “cor de burro fugido”, “Vá pentear macaco”, “Vá sombrar porco”, “Onde Judas perdeu as botas”, “Pensar na morte da bezerra”, “Tirar o cavalinho da chuva”, “Chover no molhado”, dentre tantas outras.

Com o passar dos anos, fui entendendo o significado, principalmente pelas explicações e broncas da minha mãe Júlia e da minha avó Gracinda.

Já em 72, entrando na faculdade de engenharia, começaram a surgir outras expressões e/ou palavras estranhas.

Uma das primeiras, ainda no Icex, me foi apresentada pelo Professor Ruy Tojero : “Vetor”.

Aula de Mecânica Geral I.

Eu atento numa resolução de um problema no quadro negro (naquela época era realmente negro), não percebi em que momento o vetor tinha desaparecido.

E ingenuamente fui perguntar ao Mestre onde ele tinha ido.

Ele, sarcasticamente (como diria meu pequeno Luca), colocou o giz na mesa calmamente e me chamou até a porta da sala:

– Corra que ainda dará tempo de alcança-lo, ele está quase descendo a escada.

E lógico que obedeci.

E não voltei mais nas aulas sobre os vetores.

Bomba! E tive que repetir o semestre da matéria, que era pre requisito de Mecânica Geral II.

Mas aprendi o que era Vetor.

Outra palavra cabulosa que conheci foi no meu primeiro mês de estágio na vida, na Construtora Rochedo.

Estava eu na importante missão de fazer (na mão, não existia excel, muito menos computador) os quantitativos de um hospital que seria licitado na Usina de São Simão.

E me deparei com um monte de janelas, de vários tamanhos e materiais, que estavam com o nome de esquadrias.

Como tive dúvidas de como quantifica-las, perguntei ao chefe, o experiente Dr. Mangueira, dono da Rochedo, de quem eu era o estagiário:

– Doutor Mangueira, como devo colocar as “esquadrilhas” no quantitativo?

– Não precisa mais, elas acabaram de passar, olhe que ainda poderá enxergar as fumaças deixadas por elas, me mostrando o céu azul  na janela.

Até hoje ainda troco esquadria por esquadrilha, e vice versa, de tanta vergonha que passei.

Ontem, prestes a completar meus 65, às 3 e meia da manhã, aprendi o significado de uma sinistra expressão em francês, que nunca consegui soletrar e nem pronunciar com  o meu francês de Colégio Santo Antônio.

Que era o nome de uma janela, eu sabia.

Minha Doce Aurora (e não é só uma homenagem à doce Veruska do meu xará Ricardo Boechat. Ela é doce sim) desfez minha dúvida de décadas.

Perguntei sem nenhuma vergonha o que significava o francês do tipo de janela que se pronunciava “maxi air”, ou “Maxmoi”. A cada dia falava de forma diferente.

O nome correto e sem nenhuma tradução do francês é: “Máximo Ar”, ensinou minha mestre e doce esposa arquiteta.

E caiu na gargalhada, que durou pelo menos mais uma meia hora.

Valeu para tirá-la do torpor da falta de ética que este país maluco tem nos jogado na cara diariamente.

 

 

 

 

 

Filhos

filhos 3Sempre achei que só depois que partimos é que poderíamos ajudar os filhos, transitando em todas as situações de forma invisível e silenciosa.

Falando aos ouvidos deles, sem emitir som algum.

E sem sermos notados.

Agindo como um anjo da guarda.

Como desejo ser um anjo da guarda para meus 3 filhos…

Só meus conselhos, os exemplos bons que dei na vida, não estão adiantando.

Impotência que me tira as forças.

Momento então de prece e recolhimento.

Preciso de uma reforma íntima para ajuda-los.

No sonho que tive esta noite, pude interagir e ajudar um deles.

Impressionante como pude falar sem ser visto em muitos momentos difíceis de um dos filhos.

E percebi que entendeu.

Mas no sonho não estava mais nesta vida.

Quero poder fazer enquanto estou aqui.

Por muito tempo ainda.

Colar de pérolas

Comecei a ler a conta gotas no meu kindle o livro “Cuide dos pais antes que seja tarde”, do Fabrício Carpinejar.

Em cada frase, em cada palavra, vem a imagem da minha mãe Júlia.

Tenho ido visita-la com maior frequência e com uma enorme paciência e, consequentemente, observo cada detalhe para retribuir todo o afeto que recebi dela durante toda a minha vida.

Ela chegou aos 87 e só agora percebi que ela está sempre usando um colar de pérolas.

Observo também que ela está sempre bem vestida, nunca de pijama nem de havaianas, em qualquer hora do dia que eu chego em sua casa, mesmo sem avisar.

Também não usa a sandália fechada que a fisiatra receitou.

A vaidade dela não permite, que hoje entendo e aceito muito bem.

Minha mãe sempre foi assim.

Meu pai deve ter dado o primeiro de muitos colares de pérolas que ela tem e usa desde então.

Acho que nunca a vi, exceto nos finais de semana no Sharlé, sem um colar de pérolas.

Ela fica bem mais bonita que a Jackie Kennedy, que tinha também esta marca do colar de pérolas.

Dona Júlia é a Primeira Dama da nossa família.

Sabe-se que as pérolas estão sintonizadas com as fases da lua, que controlam as mudanças das marés.

São objetos calcificados de forma esférica precisa, encontrados em moluscos, do mesmo material usado para formar suas conchas protetoras.

Representam assim o papel protetor que ela sempre exerceu na minha vida.

A minha maestrina, desde sempre.

As pérolas podem durar até 150 anos e uma pérola natural com cerca de 2 mil anos foi descoberta na Austrália.

Não chego a pedir a Deus que a mantenha aqui com o mesmo tempo de vida de uma pérola de seu colar, mas peço que me dê sabedoria e saúde para conseguir escuta-la e entender suas tristezas e necessidades.

Ser o porto seguro que ela sempre foi para mim.

perolas

Última noite – parte 1

 

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Antes da partida:

Noite de abril de 1998, uma quinta-feira.

9 dias de Biocor.

Mais cedo, Elisa pede à mãe para leva-la para ver ou saber do avô.

Foi se despedir, sem saber.

– Professor Mozart está muito mal no CTI (dizia a recepcionista/telefonista)

Por inúmeras vezes, este era o mantra dela.

Alunos, ex-alunos e amigos ligavam perguntando sobre o estado de saúde do meu pai, depois das safenas.

E minha mãe só escutando, já paralisada.

Num ímpeto de ira, cheguei até a moça e perguntei se ela era médica.

– Lógico que não, foi a resposta.

Pedi então para que ela transferisse as ligações para um médico que, longe dali, iria responder informando com propriedade e privacidade.

Aproveitei e pedi papel.

Preenchi com minha caneta tinteiro preta 4 folhas de formulário contínuo que a pseudo médica telefonista tirou da impressora matricial Epson.

Escrevi ao dono do hospital, identificando-me com e-mail, identidade e Crea.

Este dono, um médico pseudo engenheiro, nunca deve ter lido.

Pelo menos nunca me respondeu.

Falei sobre a minha visita ao CTI 2 ou 3 dias antes, com o Marquinhos, médico clínico dele e meu amigo.

Ele, como eu, também nascido em 6 de março.

Como Michelangelo, David Gilmour e o primo Carlinhos.

Trocavam o piso do CTI (tipo um paviflex), que exalava um forte cheiro de cola.

Só dias depois entendi o motivo dos meus olhos vermelhos e ardendo. Ainda

não era de emoção.

Davam uma faxina no CTI.

Meu pai mal, infecção também nos pulmões, e uma senhora provavelmente também muito mal, os dois únicos hóspedes naquele sábado de manhã.

Devem ter dado alta aos que não estavam nas últimas.

Consegui comunicar com ele, de uma forma que nunca tinha acontecido.

Falei com ele, que estava sentado, todo cheio de tubos e uma máscara de oxigênio no rosto, que em breve sairia dali.

Ele pediu ao Marquinhos, com o olhar para o nada, para retirar a máscara da boca e disse:

– Meu filho, seu pai morreu.

Assustado, tentei brincar com ele dizendo algumas coisas sem nexo, como ir assistir ao jogo do Galo contra o Vila naquela tarde, como ele tinha me levado na minha infância, logo ali no Alçapão do Bonfim.

E ele novamente:

– Meu filho, seu pai morreu.

Marquinhos recoloca o oxigênio no rosto dele e me tira de lá.

Sem poder falar sobre o que vivi com a Dona Júlia, desço a BR surdo, mudo e lesado para meu escritório.

Lá, durante alguns minutos, ou algumas horas ou dias, tenho uma forte descarga emocional.

Evacuo sangue. Muito sangue.

Só saio do torpor quando escuto um buzinaço na rua.

Era minha irmã Miriam, que tinha combinado me buscar para a visita da tarde.

Comentei sobre o acontecido no vaso sanitário e falamos em rompimento de vasinhos que poderiam ter provocado o sangramento.

Que nada.

Só tempos depois entendi o recado e a despedida dele.

E minha dor ao entender que já tinha perdido meu pai.

Voltando àquela noite, um médico residente nos chama (eu, Miriam e Dona Julia) na antessala do CTI e disse meio assustado algo como:

– O gato subiu no telhado.

Geny

geny (1)

Primeira conexão minha com uma faxineira na vida foi a Geny.

Antes conhecia apenas empregadas domésticas.

Eram escravas. Mesmo depois da Lei Áurea.

A primeira empregada da minha mãe que eu conheci foi a Geralda.

Morena bonita.

Índia. Ou filha de.

Era empregada doméstica e minha babá.

Será que cheguei a mamar nela?

Sou o primogênito, um quase privilegiado.

Nas constelações familiares dizem que sim.

Apesar de não significar absolutamente nada.

Não tenho como interferir na vida de meus pais nem de minhas irmãs.

Só carreguei o peso da responsabilidade.

O filho mais velho, o neto estudioso e CDF, o substituto do pai aos 14 anos quando ele saiu de casa.

O leva e traz recados durante uns 3 anos.

Ou mais.

Voltando à Geny:

Ela era a pessoa que realiza trabalhos domésticos como a faxina, que é a limpeza da casa e inclui varrer, tirar o pó, lavar, retirar o lixo e muitas outras.

Primeiro foi da Tia Crioula.

A Dona Maria José, que odiava ser chamada de Tia Crioula.

Como as filhas Zi e Tim, primas da minha mãe, que também odeiam seus apelidos.

Como o pai delas, o Tavico, marido da Tia Crioula.

Como o trabalho dela para a chata e extremamente vaidosa Tia Crioula não devia ser muito bem reconhecido, foi trabalhar para minha mãe, a Julinha.

Com seus olhos enormes, batom vermelho e sorriso aberto e sempre vaidosa, ia 3 ou 4 vezes por semana faxinar.

Não só tirar o pó e a sujeira, mas também reciclar todo o lixo psicológico familiar – mãe, avó e tias.

Era mais velha que minha mãe (86 anos hoje) e não deve estar mais aqui neste mundo maluco.

Lembrava que falava de uma filha mas, sabiamente, isolou a sua própria família das “Pardinis”.

Foi trabalhar depois para minha vó Gracinda.

Depois para minha irmã Miriam.

Era então considerada quase como uma pessoa da família Loureiro.

Geny era extremamente do bem.

E meio maluca. No bom sentido.

Uma das últimas lembranças minhas dela foi no prédio onde mora minha mãe até hoje.

Estava visitando a Julinha quando de repente entra esbaforida a Geny, soltando fogos pelas narinas.

– Dona Julinha, passei muita raiva agora no elevador vindo pra cá. Uma mulher desaforada passou os 14 pavimentos olhando para mim e me remedando. Tudo que eu fazia ela repetia. Botei a língua pra fora numa careta e ela fez o mesmo. Por pouco não dei uns tabletes na fuça dela. Ainda bem que o elevador chegou e ela deve ter continuado até a cobertura. Não olhei para trás para saber…

Devo ter falado para ela que no elevador tinha (e tem) um espelho que vai do piso ao teto, em frente a porta de entrada.

Mas nunca poderia convence-la que ela estranhava-se com a própria imagem neste espelho.

Esta era a Geny.

Bendita Geny!

JB

9AC36E3E-1845-4EB1-B95B-E83CF498B5A9Lá em casa tinha um JB também empoeirado no armário da sala.
Só seria aberto quando o filho – eu – passasse no vestibular.
E aconteceu naquele dezembro de 1971.
Perdi (eu, não eles país) até a final do campeonato nacional daquele ano. O único que o nosso Galo ganhou até hoje.
Mas eu tinha que ficar em casa estudando para que o JB pudesse ser aberto.
Que enfim foi aberto, após o JN ter divulgado a lista dos aprovados (fiz 142 pontos, mesmo número de pontos que o Lu, que viria a ser meu cunhado anos depois), depois de termos comemorado friamente no Mangueiras, pois meus amigos não passaram na UFMG.
Só foi aberto em casa, eu deitado na minha cama levemente tonto com o golinho permitido, e meu pai e minha mãe ajoelhados, um de cada lado da cama, rezando um “Pai Nosso”.
Que não chegou ao “o pão nosso de cada dia…” , culpa do JB aberto minutos antes.
Apagaram os 2 ajoelhados mesmo.
Tantos anos guardado e com efeito ultra rápido.
Descobri pelo Carpinejar hoje porque nunca mais tomei uma dose de um JB.