Lembro-me da primeira vez que senti esta coisa maluca, este medo absurdo, o que anos depois soube que o nome usado pelos médicos é “Síndrome do Pânico”.
Domingo à noite, tinha saído da casa de um colega, meu sócio na época, umas 2 ou 3 cervejas para suportar o violão de engenheiro do primo, que distribuía sempre caderninhos iguais com as letras das músicas para que todos pudessem acompanhar e cantar junto.
Na mesma sequência do caderninho, sem pular uma canção nem fazer surpresa com uma fora da relação.
Cantavam todos desafinados, fora do tom. Principalmente eu.
Roda de violão de engenheiros. Cartesianos.
Um domingo cenográfico morno, gelado de emoção.
Uma MPB que não eu gostava, mas que era chique saber e admirar.
O meu velho e bom rock’n’roll não era moda.
Não é até hoje, décadas depois.
Covardia minha não levar minha flauta transversa Yamaha bege clara e tocar Bourré de Bach/Ian Anderson que aprendi com o primo Maurício. Ou Sonata ao Vento, composição minha.
Também de não ter levado meu violão Giannini, o primeiro que ganhei aos 10 anos.
Que não dei continuidade aos estudos, pois o meu primeiro professor, Raul Marinuzi, foi passar férias de um mês na Itália e nunca mais voltou. Estava aprendendo as cifras do Roberto Carlos, alternando com as partituras clássicas.
Ou mesmo minha gaitinha Hering, meu primeiro instrumento musical.
Depois da última música do caderno, da tabela de engenharia, que talvez tenha sido Carinhoso do Pixinguinha, puxei a fila para ir embora.
Lembro que sai sem amarrar os cadarços do tênis Rainha.
Aliás, porque nunca aprendi a amarrar cadarços?
Vergonha de perguntar como se fazia.
Fingia que gostava do cadarço solto.
Mas também odeio usar o crachá no meu trabalho.
“Engenheiro Ricardo Dolabella”. Sou muito mais que isto.
Tudo ia relativamente tranquilo, descendo a Avenida do Contorno com meu Passat TS branco, até que entrei à esquerda na Prudente de Morais, por volta da meia-noite.
Aí tudo mudou. Não foi por causa do álcool.
O asfalto escureceu muito, os passeios ficaram infinitamente mais largos, os postes mais altos.
Todos os poucos carros que eu via pareciam que iam colidir no meu.
Meus pés nos tênis desamarrados não mais conseguiam tocar os pedais do acelerador.
Encostei o Passat, desci e deitei no meio-fio.
Chorava tremendo de medo, vergonha e impotência.
Avenida muito iluminada, quase deserta.
Eu me sentia em um enorme salão de festas totalmente vazio, muito claro e silencioso, só com as minhas emoções, meus medos e bloqueios.
E eu estupidamente sozinho. Amedrontado e acovardado.
Tive uma ajuda dos entes lá de cima, só pode, entrei no carro e, de centímetro em centímetro, rente ao meio fio, consegui entrar com o carro na garagem, uns 3 ou 4 quarteirões dali.
O Passat ficou estacionado na minha vaga por uns 4 anos pelo menos.
Só ligava o motor uma vez por semana, para não arriar a bateria. A do Passat e a minha própria bateria.
Ficamos anos desenergizados.
Aos poucos descobri que não era loucura, nem frescura.
E também não era depressão.
Era um medo absurdo de sair do meu porto seguro – meu apartamento, e de entrar em qualquer veículo.
Ônibus, taxi, me oprimiam. Desci de vários deles desesperado antes de chegar ao destino final.
Uma sensação que algo muito terrível estava prestes a acontecer.
Também não conseguia ficar em locais com muita gente. Praças, festas, avenidas cheias.
Ia logo para o Porto Seguro.
Tudo isto sem falar com as minhas filhas, irmãs e amigos.
Nem com as candidatas a namoradas.
Como iria conseguir se nem ao menos dirigia?
A desculpa do carro estragado e falta de grana nunca colaram.
Com um ou outro amigo comentei.
E vinha o conselho para sair da toca e tomar uma no bar – a melhor terapia.
Não ia.
Até que encontrei 2 anjos encarnados que me mostraram o caminho.
O primeiro: A médica Sofia Bauer.
Alta madrugada, assistindo no porto seguro uma reprise de uma entrevista na TV Cultura, eis que uma psiquiatra descreve tudo o que eu sentia como sintomas de uma tal “Síndrome do Pânico”.
Fiquei emocionado com a possibilidade de entender o que acontecia comigo e mandei um e-mail ainda de madrugada pedindo ajuda a ela, que tinha o mesmo provedor meu: Prover.
Poucas horas depois me enviou um arquivo enorme em PDF do seu livro que ela ainda nem tinha sido publicado: “Síndrome do Pânico – Um sinal que desperta.”
Nele, descobri algumas das causas do meu desequilíbrio: um excesso de culpas, de fardos que carregava, do meu bom caráter, da minha honestidade, da minha sensibilidade à flor da pele, dentre outras tantas.
Comecei a entender que era preciso respirar, parar, aliviar, descansar e me sentir protegido.
E como no Budismo, aprendi a ver o sofrimento como um sinal que iria me despertar.
Segundo Anjo: A Irmã beneditina Blandina Dolabella
Prima do meu pai, freira no Mosteiro Nossa Senhora das Graças, na Vila Paris.
Já tinha ido nela no papel de pai das minhas filhas e no de filho da Julia e do Mozart.
E ela se referia a mim como filhão.
O filho que não teve, pois era “casada” com Jesus Cristo, e usava uma aliança na mão esquerda.
Tinha ficado décadas enclausurada em um mosteiro, sem ter contato com ninguém de fora, sem televisão, sem rádios ou jornais, apenas lendo muito e rezando/conversando com Deus.
Tão logo sentiu que eu estava emocionado e apavorado, com toda a sua sabedoria colocou as 2 mãos sobre a minha cabeça e me deu um passe (nunca com este nome, claro), falando ou orando palavras incompreensíveis para mim. Soube mais tarde que era sânscrito.
E numa simplicidade incrível, depois de ter trocado informações com seus guias ou santos amigos, me perguntou:
– Quando você tem uma dor de cabeça, o que faz para melhorar?
– Tomo um analgésico, respondi.
– E como agora está se sentindo paralisado com esta sobrecarga que tem carregado, espere aí que vou dar um telefonema e volto.
E retornou já com uma consulta marcada com uma neurocientista, conhecida dela.
Para aquela mesma tarde.
E, junto da minha terapia e do que aprendi no livro, comecei a tomar um veneninho que começou a me tirar do abismo que estava.
Os sinais e os anjos me despertaram.