Geny

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Primeira conexão minha com uma faxineira na vida foi a Geny.

Antes conhecia apenas empregadas domésticas.

Eram escravas. Mesmo depois da Lei Áurea.

A primeira empregada da minha mãe que eu conheci foi a Geralda.

Morena bonita.

Índia. Ou filha de.

Era empregada doméstica e minha babá.

Será que cheguei a mamar nela?

Sou o primogênito, um quase privilegiado.

Nas constelações familiares dizem que sim.

Apesar de não significar absolutamente nada.

Não tenho como interferir na vida de meus pais nem de minhas irmãs.

Só carreguei o peso da responsabilidade.

O filho mais velho, o neto estudioso e CDF, o substituto do pai aos 14 anos quando ele saiu de casa.

O leva e traz recados durante uns 3 anos.

Ou mais.

Voltando à Geny:

Ela era a pessoa que realiza trabalhos domésticos como a faxina, que é a limpeza da casa e inclui varrer, tirar o pó, lavar, retirar o lixo e muitas outras.

Primeiro foi da Tia Crioula.

A Dona Maria José, que odiava ser chamada de Tia Crioula.

Como as filhas Zi e Tim, primas da minha mãe, que também odeiam seus apelidos.

Como o pai delas, o Tavico, marido da Tia Crioula.

Como o trabalho dela para a chata e extremamente vaidosa Tia Crioula não devia ser muito bem reconhecido, foi trabalhar para minha mãe, a Julinha.

Com seus olhos enormes, batom vermelho e sorriso aberto e sempre vaidosa, ia 3 ou 4 vezes por semana faxinar.

Não só tirar o pó e a sujeira, mas também reciclar todo o lixo psicológico familiar – mãe, avó e tias.

Era mais velha que minha mãe (86 anos hoje) e não deve estar mais aqui neste mundo maluco.

Lembrava que falava de uma filha mas, sabiamente, isolou a sua própria família das “Pardinis”.

Foi trabalhar depois para minha vó Gracinda.

Depois para minha irmã Miriam.

Era então considerada quase como uma pessoa da família Loureiro.

Geny era extremamente do bem.

E meio maluca. No bom sentido.

Uma das últimas lembranças minhas dela foi no prédio onde mora minha mãe até hoje.

Estava visitando a Julinha quando de repente entra esbaforida a Geny, soltando fogos pelas narinas.

– Dona Julinha, passei muita raiva agora no elevador vindo pra cá. Uma mulher desaforada passou os 14 pavimentos olhando para mim e me remedando. Tudo que eu fazia ela repetia. Botei a língua pra fora numa careta e ela fez o mesmo. Por pouco não dei uns tabletes na fuça dela. Ainda bem que o elevador chegou e ela deve ter continuado até a cobertura. Não olhei para trás para saber…

Devo ter falado para ela que no elevador tinha (e tem) um espelho que vai do piso ao teto, em frente a porta de entrada.

Mas nunca poderia convence-la que ela estranhava-se com a própria imagem neste espelho.

Esta era a Geny.

Bendita Geny!

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