Carinho maternal

MÂE

 

Sempre podemos ser demitidos por amigos.
Até julgados e condenados por amigos.
Mas mãe não julga.
Mãe não demite.
Mãe vai ao colégio te defender, quando um professor de história diz que seu filho não presta.
Mesmo sempre prestando, ela não quer nem saber.
Professor atribuiu ao filho o que pensava do pai do seu filho.
Mãe sabe disto e toma suas dores.
Pra sempre.
Mãe colore seus mapas.
Mãe te ensina a colorir a vida.
Mãe encapa seus cadernos e livros.
Mãe te encapa te protegendo dos medos.
Mãe põe gumex no topete e finge não ver que atrapalho tudo ao descer do carro, com vergonha do cabelo duro.
Mãe não te ensina amarrar os sapatos.
Acha muito simples e deixa para as professoras.
Mãe te autoriza numa festa a comer um segundo brigadeiro ou cajuzinho apenas com o olhar.
Sem mover um músculo do rosto.
Se não olhar para ela, a autorização prévia é para apenas um doce.
Mãe te dá um coelho enorme de pelúcia que fala a noite.
Diferente do coelho que deu ao primo mais velho.
O dele era sempre menor e mudo.
Mãe te coloca no banco da frente do carro, quando o pai se foi.
Você vira o copiloto e o segurança dela.
Depois dos 16, pode até fumar.
Mesmo quando o pai voltar, você se sentará na frente.
Mãe te pede colo quando o pai se foi.
Magrinha.
Mas não confessa que não tem comido e chora na madrugada.
Mãe vai te fazer sair do seu quarto quando o pai voltar.
Sem dizer uma palavra.
Mãe te obriga a ficar junto dela na janela escondidos esperando o pai chegar de madrugada do trabalho.
Ou da gandaia.
No escuro.
Mãe tenta esconder que dorme no chão.
Num colchonete ao lado da cama de casal fedendo a birita.
E mostra de manhã a cueca engomada.
Mãe te pede para escutar a voz do além.
Que sai pela boca de uma amiga que fuma charuto e bebe a cachaça que ela te pediu para comprar escondido na padaria.
Mãe te pede para comprar álcool e jogar nas paredes do apartamento.
Também nas paredes da caixa de escada do prédio.
Mãe explica que isto fará o pai voltar pra casa.
E não é que deu certo?
Hoje estou aqui, quase 5 décadas depois, sendo recebido como se tivesse 15 anos.
Vim arrumar as caixinhas dos veneninhos que ela toma.
De domingo a domingo, manhã, almoço e noite.
Descobre que ainda não almocei e pede à ajudante que veio dos céus para fazer correndo uma omelete.
Vim devolver todos os cuidados que ela sempre teve comigo.
E ela sente a fome que eu tenho.
E a sede quando me oferece a Coca Zero.
Em vez de cuidar, sou é cuidado.
Descubro que não é uma despedida.
É vida!
Não é saudade.
Saudade a gente sente do que a gente não teve ou acabou.
É poder aproveitar cada segundo com ela e devolver todo o amor que recebo até hoje.
Despeço dela com muitos ciscos nos olhos e na alma, com a incumbência de trazer o Glijage 500, que só tem estoque até terça.
Farei o possível para trazer junto do Glifage, o céu, as estrelas e a paz.
Ela precisa mais disto que de todos os veneninhos que organizei nas caixinhas.
Ela quer muito viver.
Viverá.