Luso Brasileiro

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Julia Loureiro Pinto.
Nome de solteiro da minha mãe.
A mãe dela, minha madrinha e avó era Gracinda Gomes Pardini quando solteira.
Gracinha Gomes Loureiro quando se casou com meu avô Antônio Loureiro.
Avô que não conheci, só o Binha teve este privilégio.
Um português que chegou no Brasil, mais precisamente em Ribeirão Vermelho, junto do primo também chamado Antônio Loureiro.
Pelo menos meu avô foi trabalhar na Rede Ferroviária Federal.
Mal sabia escrever.
Mas era um gênio na oficina e um cara ético.
Meu chip vem dele também.
Para não fazer confusão com o nome dos 2 primos, alguém na cidade sugeriu que colocassem mais um nome.
O primo virou então Antônio Loureiro Pato e meu avô Antônio Loureiro Pinto.
Só podia mesmo ser ideia de português.
Que me dá um orgulho enorme do meu passaporte de cidadão português.
Assim fica explicado o Pinto da minha mãe.
Que só casar com meu pai, perdeu logo este Pinto e ganhou o Dolabella.
Que agora aos 86, conta este caso semanalmente, como uma novidade.
Ela, a única dos 5 filhos que teve o Pinto do pai.
Que ignorou os sobrenomes da esposa e só colocou o seu Loureiro nos outros.
Joffre, Jarbas, Jose e Janir. Loureiros, sem o Pinto.
Voltando ao avô que não conheci.
Apenas num quadro oval na parede da sala da sua Gracinda.
Careca, sisudo e óculos redondos.
Impunha um respeito enorme em todos na sala.
Morreu com 50 e poucos anos, acho que de sopro no coração.
Reza a lenda que nas refeições sentava-se na cabeceira da mesa, esposa e 5 filhos sentados em silêncio.
Tinham que esperar ele comer uma cebola crua e tomar um cálice de vinho do Porto.
Só depois de soltar um arroto alto é que todos podiam se servir.
E comiam em silêncio.
Também pudera.
Minha avó tinha apenas 14 anos quando se casou com ele.
Nem o conhecia – foi arranjado pelas famílias.
E ainda brincava de boneca.
Um dia meu tio Joffre me contou como era a camisola dela.
A única.
Branca, comprida nas pernas e braços e só tinha 4 botões na região da braguilha.
5 estupros, imagino.
Mas o português era extremamente inteligente como ferroviário.
Observando o enorme desgaste das rodas das locomotivas como dos trilhos quando a composição entrava em uma curva, desenvolveu uma peça que é usada até hoje.
Aperfeiçoada, claro.
Ao entrar na curva, a peça soltava gotas de óleo queimado, que reduzia a quase zero o atrito entre roda e trilho.
E assim a Rede economizou uma fortuna em manutenção e ainda vendeu o uso e a ideia patenteada para o mundo inteiro.
Invento que o Tio Joffre patenteou e orgulhosamente mostrava a Revista Cruzeiro (ou Cigarra, não me lembro) com a foto de capa meu avô entregando (doando) a patente para o Presidente da Rede.
Perguntado porque não vendeu, a resposta era imediata: se criei a peça dentro da oficina da Rede e em horário de trabalho, ela não me pertencia.
Não ganhou um tostão furado do patrão, mas ganhou a admiração e o orgulho deste neto que não conheceu.
Espero ter passado este valioso chip da ética aos meus filhotes Elisa, Ana e Luca.