Maternidade

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Minha pequena acabou de entrar na sala 1 com o marido.
Vai dar à luz. Laura chegando.
Segundo parto, meu segundo neto.
E eu deixado pra trás, num salão enorme, com guichês, apitos de senhas, tevês passando nada.
Hospital Dia, maternidade.
Parece que foi ontem que minha Elisa nasceu.
Chegamos um pouco mais cedo que hoje na maternidade.
Eu, marinheiro de primeira viagem, 36 ano mais novo.
Tive que achar um médico às pressas para subir no elevador acompanhando a mãe.
(Elisa tem a quem puxar com estas crises de ansiedade, que ela chama de pânico).

às 07:30 ela chegou.
Sem chorar, meio que dopada pela injeção contra a dor que aplicaram na mãe.
Susto enorme e silêncio total na sala de parto.
Não chorou no primeiro minuto, mesmo tendo assustado, penso eu, com a barulhada da montagem do fórceps.
Que nem chegou a ser usado.
Ela estava com o pescoço enrolado no cordão umbilical.
(Desde então ela é preguiçosa para sair da sua zona de conforto).
Depois da injeção no próprio umbigo (explicaram que deram um tipo de antídoto do que a mãe tomou), soltou um belo berro.
Que durou uns 3 dias.
Tudo o que estudei, me preparei para assistir o parto, saiu totalmente diferente do previsto.
Cor, choro, tamanho.
E vem o médico e informa: tirou nota 7 no teste de Apgar. Sabia la o que era…
7 em 10.
Eu, acostumado com muitos 10, estranhei.
Mas o 7 virou 10 em poucas horas.
Para mim, virou 100.
07 de abril de 1981.
Até hoje espero o manual dela que esqueceram de me entregar.
Tento seguir minha intuição de pai pisciano.

E eu agora aqui no salão esperando.
Minha Sony à postos para registrar mãe e filha.
Melhor: filha e neta.
Mas me barraram na roleta.
Só o pai da Laura pode entrar com uma pulseira “verde cheguei” no pulso.
Avôs são menos importantes que imaginava.
Então, enquanto pacientemente espero notícias, monto na mente o filme da vida dos 36 anos da minha hoje pequena barrigudinha.
Tudo o que disse a ela diretamente e também nas entrelinhas.
Todos os palpites que dei a ela. Acho que a maioria nem escutados.
Foda-se.
Apenas falei o que pensava sem nenhuma culpa.

Ela agora deu uma chegada do lado de trás da roleta para informar que são 3 na espera do parto.
Acho que meu conselho “respire fundo e relaxa” acalma e dissipa a ansiedade dela.
Mais que o reiki que mandei de madrugada.
Mas não vi os olhos tristes.
Estavam brilhantes.
Medo e felicidade, imagino.
Quem está com olheiras sou eu.
Totalmente diferentes os papéis.
Pai e avô.
Ser pai e tudo na vida.
É dedicar a vida aos filhos.
É amar em silêncio, também incondicionalmente.
É ser o arco e atirar eles para a vida.
Mas ter uma ponta da corda invisível que nos une amarrada no pulso.
Para que, quando sentir algum risco de perigo, dar um puxãozinho avisando: “seu pai está aqui, sempre, desde que você nasceu, para o que der e vier”.
E sigo aqui na espera.
Escrevendo e relembrando sem retoques. Meu GPS dando um upgrade e as memórias vêm misturadas aos soluços, lágrimas e golfadas.
Como é na vida.

Vai dar tudo certo.

Pai tem sexto-sentido. Avô não sei.

Volto depois.

 

 

 

 

 

3 gerações

Luca chega da escola hoje – sábado letivo –  , 2 aulas de italiano e 2 de matemática.

Veio bem falante:

Todos na escola, professora de matemática e alunos, me chamam de “The flash”.

Sou o primeiro a entregar os exercícios.

Queria ter conhecido meu avô Mozart.

Sei que ele ficaria orgulhoso de mim.

Caiu um cisco no meu olho …..

 

paifilhoneto

Ciências exatas com aversão a cálculo

Mais uma manhã na função de acompanhante da Dona Julia ao médico.
Hoje no Marquinhos, antigo médico da família.
Que a trata como uma segunda mãe, e ela o chama de filho adotivo.
Um cara do bem, músico, cardiologista foda e também nascido em 6 de março.
Como David Gilmour e Michelângelo.
Dona Júlia, do alto dos seus quase 86 anos (faltam 11 dias), ansiosa e confiante ao mesmo tempo.
Fosse eu o psiquiatra que quis ser aos 17 anos, já teria pingado na sua boca umas 5 gotas de Rivotril.
Mas acabei me tornando um engenheiro civil, calculista, para a alegria do meu pai.
Contrariando as previsões do psicólogo que me fez testes vocacionais, um mês antes da minha inscrição no vestibular, que me deu bomba e fui o único a ser chamado numa salinha a sós com ele.
Resultado dos testes: “ciências exatas, mas com aversão a cálculo”.
Logo eu, filho do professor de matemática!
Entregou-me um roteiro de umas 5 páginas, mandou comprar um caderno bem grosso e escrever uma auto-biografia em uma semana.
A começar de quando ainda morava no útero desta senhorinha que está sentada aqui do lado.
Claro que não fiz e passei um mês na maior confusão mental.
Naquela época, anos 70, metade dos alunos homens do colégio franciscano que eu estudava escolhia engenharia.
A outra metade medicina.
O ponto fora do padrão foi o querido colega Chico.
Fez jornalismo e foi depois pra Globo, onde está até hoje.
Então cravei o X na Engenharia A, já que não tinha a opção Psiquiatria, só achei a Medicina.
Aquela manhã no teatro Francisco Nunes, quando fiz a inscrição para o vestibular, acabou definindo meu destino.
Profissional, emocional, financeiro e outras escolhas que nem com a psicanálise descobri.
E aqui estou, 46 anos depois, esperando o médico chamar e tentar explicar em linguagem que ele entenda, o que minha mãe tem para ele poder consertar.
Haja viagem no tempo, orações e envio de Reiki nestes longos 57 minutos de espera até agora.