Ciências exatas com aversão a cálculo

Mais uma manhã na função de acompanhante da Dona Julia ao médico.
Hoje no Marquinhos, antigo médico da família.
Que a trata como uma segunda mãe, e ela o chama de filho adotivo.
Um cara do bem, músico, cardiologista foda e também nascido em 6 de março.
Como David Gilmour e Michelângelo.
Dona Júlia, do alto dos seus quase 86 anos (faltam 11 dias), ansiosa e confiante ao mesmo tempo.
Fosse eu o psiquiatra que quis ser aos 17 anos, já teria pingado na sua boca umas 5 gotas de Rivotril.
Mas acabei me tornando um engenheiro civil, calculista, para a alegria do meu pai.
Contrariando as previsões do psicólogo que me fez testes vocacionais, um mês antes da minha inscrição no vestibular, que me deu bomba e fui o único a ser chamado numa salinha a sós com ele.
Resultado dos testes: “ciências exatas, mas com aversão a cálculo”.
Logo eu, filho do professor de matemática!
Entregou-me um roteiro de umas 5 páginas, mandou comprar um caderno bem grosso e escrever uma auto-biografia em uma semana.
A começar de quando ainda morava no útero desta senhorinha que está sentada aqui do lado.
Claro que não fiz e passei um mês na maior confusão mental.
Naquela época, anos 70, metade dos alunos homens do colégio franciscano que eu estudava escolhia engenharia.
A outra metade medicina.
O ponto fora do padrão foi o querido colega Chico.
Fez jornalismo e foi depois pra Globo, onde está até hoje.
Então cravei o X na Engenharia A, já que não tinha a opção Psiquiatria, só achei a Medicina.
Aquela manhã no teatro Francisco Nunes, quando fiz a inscrição para o vestibular, acabou definindo meu destino.
Profissional, emocional, financeiro e outras escolhas que nem com a psicanálise descobri.
E aqui estou, 46 anos depois, esperando o médico chamar e tentar explicar em linguagem que ele entenda, o que minha mãe tem para ele poder consertar.
Haja viagem no tempo, orações e envio de Reiki nestes longos 57 minutos de espera até agora.