Do menino ao homem. Ou o contrário.

Após participar de um encontro (Divinas Conversas) na escola do meu filho com o escritor João Anzanello Carrascoza, resolvi pensar e desenvolver um projeto.
Que já vinha se desenhando desde a oficina com o Carpinejar e da Divina Conversa com o Antônio Prata.
Desta vez espero desenvolver não um projeto estrutural de concreto armado, mas sim um projeto estruturado da minha vida.
Ainda não defini o nome do projeto, mas pode ser Pais e Filhos.
Meus pais e meus três filhos.
Mas pode soar como um plágio do Renato Russo. Sou sim um grão de areia, mas não tenho nome de santo. Eu nunca te contei (sugestão de título de crônica do Carpinejar).
A estrutura da delicadeza. Estruturando um filho primogênito e único macho. Pela espera urgência da minha sustentação. 1969 – O ano do rearranjo da minha estrutura. Ideias de títulos.
Sei que o melhor título virá numa manhã logo ao acordar.
Pretendo me revisitar na infância, na imaturidade quando ganhei de presente a Elisa e a Ana e agora com o Luca.
Quem sabe assim corrijo algumas tantas falhas e reescrevo um passado novo, rabiscando e modificando o que posso julgar hoje para melhorar lá atrás. Tentarei caminhar pelas entranhas das minhas experiências, esmiuçando, repescando e desossando todas as minhas relações familiares. As belas, as doloridas e até o que tem escondido nas entrelinhas. Como o descascar o passado na terapia.
Como disse ontem o Carrascoza, tentarei falar com o meu próprio silencio para acessar minha intimidade.
Trazer o que está lá longe para meu íntimo. O que era pequeno virar grande.
Pacientemente. Espero a chaleira de café apitar, o e-mail chegar, o resultado do vestibular, a ideia brotar. Paciência não é pecado nem crime. Mas tenho pressa. Muita pressa.
Quem sabe que ao produzir o efeito a causa virá. O inverso da lei da física.
Buscarei o final que desejo.
Paixão.
Para a minha vida ter sentido.

PAI&MÃE

 

 

Luso Brasileiro

IMG_1598

Julia Loureiro Pinto.
Nome de solteiro da minha mãe.
A mãe dela, minha madrinha e avó era Gracinda Gomes Pardini quando solteira.
Gracinha Gomes Loureiro quando se casou com meu avô Antônio Loureiro.
Avô que não conheci, só o Binha teve este privilégio.
Um português que chegou no Brasil, mais precisamente em Ribeirão Vermelho, junto do primo também chamado Antônio Loureiro.
Pelo menos meu avô foi trabalhar na Rede Ferroviária Federal.
Mal sabia escrever.
Mas era um gênio na oficina e um cara ético.
Meu chip vem dele também.
Para não fazer confusão com o nome dos 2 primos, alguém na cidade sugeriu que colocassem mais um nome.
O primo virou então Antônio Loureiro Pato e meu avô Antônio Loureiro Pinto.
Só podia mesmo ser ideia de português.
Que me dá um orgulho enorme do meu passaporte de cidadão português.
Assim fica explicado o Pinto da minha mãe.
Que só casar com meu pai, perdeu logo este Pinto e ganhou o Dolabella.
Que agora aos 86, conta este caso semanalmente, como uma novidade.
Ela, a única dos 5 filhos que teve o Pinto do pai.
Que ignorou os sobrenomes da esposa e só colocou o seu Loureiro nos outros.
Joffre, Jarbas, Jose e Janir. Loureiros, sem o Pinto.
Voltando ao avô que não conheci.
Apenas num quadro oval na parede da sala da sua Gracinda.
Careca, sisudo e óculos redondos.
Impunha um respeito enorme em todos na sala.
Morreu com 50 e poucos anos, acho que de sopro no coração.
Reza a lenda que nas refeições sentava-se na cabeceira da mesa, esposa e 5 filhos sentados em silêncio.
Tinham que esperar ele comer uma cebola crua e tomar um cálice de vinho do Porto.
Só depois de soltar um arroto alto é que todos podiam se servir.
E comiam em silêncio.
Também pudera.
Minha avó tinha apenas 14 anos quando se casou com ele.
Nem o conhecia – foi arranjado pelas famílias.
E ainda brincava de boneca.
Um dia meu tio Joffre me contou como era a camisola dela.
A única.
Branca, comprida nas pernas e braços e só tinha 4 botões na região da braguilha.
5 estupros, imagino.
Mas o português era extremamente inteligente como ferroviário.
Observando o enorme desgaste das rodas das locomotivas como dos trilhos quando a composição entrava em uma curva, desenvolveu uma peça que é usada até hoje.
Aperfeiçoada, claro.
Ao entrar na curva, a peça soltava gotas de óleo queimado, que reduzia a quase zero o atrito entre roda e trilho.
E assim a Rede economizou uma fortuna em manutenção e ainda vendeu o uso e a ideia patenteada para o mundo inteiro.
Invento que o Tio Joffre patenteou e orgulhosamente mostrava a Revista Cruzeiro (ou Cigarra, não me lembro) com a foto de capa meu avô entregando (doando) a patente para o Presidente da Rede.
Perguntado porque não vendeu, a resposta era imediata: se criei a peça dentro da oficina da Rede e em horário de trabalho, ela não me pertencia.
Não ganhou um tostão furado do patrão, mas ganhou a admiração e o orgulho deste neto que não conheceu.
Espero ter passado este valioso chip da ética aos meus filhotes Elisa, Ana e Luca.

Carinho maternal

MÂE

 

Sempre podemos ser demitidos por amigos.
Até julgados e condenados por amigos.
Mas mãe não julga.
Mãe não demite.
Mãe vai ao colégio te defender, quando um professor de história diz que seu filho não presta.
Mesmo sempre prestando, ela não quer nem saber.
Professor atribuiu ao filho o que pensava do pai do seu filho.
Mãe sabe disto e toma suas dores.
Pra sempre.
Mãe colore seus mapas.
Mãe te ensina a colorir a vida.
Mãe encapa seus cadernos e livros.
Mãe te encapa te protegendo dos medos.
Mãe põe gumex no topete e finge não ver que atrapalho tudo ao descer do carro, com vergonha do cabelo duro.
Mãe não te ensina amarrar os sapatos.
Acha muito simples e deixa para as professoras.
Mãe te autoriza numa festa a comer um segundo brigadeiro ou cajuzinho apenas com o olhar.
Sem mover um músculo do rosto.
Se não olhar para ela, a autorização prévia é para apenas um doce.
Mãe te dá um coelho enorme de pelúcia que fala a noite.
Diferente do coelho que deu ao primo mais velho.
O dele era sempre menor e mudo.
Mãe te coloca no banco da frente do carro, quando o pai se foi.
Você vira o copiloto e o segurança dela.
Depois dos 16, pode até fumar.
Mesmo quando o pai voltar, você se sentará na frente.
Mãe te pede colo quando o pai se foi.
Magrinha.
Mas não confessa que não tem comido e chora na madrugada.
Mãe vai te fazer sair do seu quarto quando o pai voltar.
Sem dizer uma palavra.
Mãe te obriga a ficar junto dela na janela escondidos esperando o pai chegar de madrugada do trabalho.
Ou da gandaia.
No escuro.
Mãe tenta esconder que dorme no chão.
Num colchonete ao lado da cama de casal fedendo a birita.
E mostra de manhã a cueca engomada.
Mãe te pede para escutar a voz do além.
Que sai pela boca de uma amiga que fuma charuto e bebe a cachaça que ela te pediu para comprar escondido na padaria.
Mãe te pede para comprar álcool e jogar nas paredes do apartamento.
Também nas paredes da caixa de escada do prédio.
Mãe explica que isto fará o pai voltar pra casa.
E não é que deu certo?
Hoje estou aqui, quase 5 décadas depois, sendo recebido como se tivesse 15 anos.
Vim arrumar as caixinhas dos veneninhos que ela toma.
De domingo a domingo, manhã, almoço e noite.
Descobre que ainda não almocei e pede à ajudante que veio dos céus para fazer correndo uma omelete.
Vim devolver todos os cuidados que ela sempre teve comigo.
E ela sente a fome que eu tenho.
E a sede quando me oferece a Coca Zero.
Em vez de cuidar, sou é cuidado.
Descubro que não é uma despedida.
É vida!
Não é saudade.
Saudade a gente sente do que a gente não teve ou acabou.
É poder aproveitar cada segundo com ela e devolver todo o amor que recebo até hoje.
Despeço dela com muitos ciscos nos olhos e na alma, com a incumbência de trazer o Glijage 500, que só tem estoque até terça.
Farei o possível para trazer junto do Glifage, o céu, as estrelas e a paz.
Ela precisa mais disto que de todos os veneninhos que organizei nas caixinhas.
Ela quer muito viver.
Viverá.